
Eu sei que sumiu um avião. Eu sei que é uma tragédia sem precedentes, que tinha conhecidos da minha família no vôo.
Eu sei que tenho uma campanha e uma revista e uma reportagem para fazer.
Mas agora eu quero falar de um episodeozinho da minha infância.
Não que tenha nada a ver, mas aproveitando que já disseram que eu não ando escrevendo bem mesmo - daí eu tenho que lembrar que escrever bem nunca foi a proposta desse blog, ele surgiu lá em 2002 como uma espécie de lugar para purgar algumas misérias do meu dia-a-dia -, eu vou contar essa historinha. Ela não tem final nem moral, mas acho que ela define muito o nonsense da vida.
Eu tinha 5 anos, acho.
Era uma aluna vítima de bullying do Jardim de Infância - o bullying na minha vida só acabou na oitava série.
Daí, estava na época das vacinas, aquelas que ajudam as pessoas a definir qual é o braço esquerdo e qual é o direito e eu não lembo mais em que braço fica e está frio demais para eu ir ali olhar.
E, como minha escolinha era uma escolinha de infantes delinqüentes, mesmo que fosse particular, havia um jogo que era dar um soco no braço da vacina para ver o colega morrer de dor e chorar e todo mundo poder chamar o coitado de chorão.
Depois de muito levar socos sem chorar, a pequena Beatriz foi surpreendida por um coleguinha que pedia: Dá um soco no meu braço. E eu dizia: não, eu não sei dar soco.
Mas eu tô mandando.
Mas eu não posso. Vai machucar.
Mas eu tô mandando. Se tu não der, eu dou um soco no teu.
"mais um", eu pensei. E, agora com medo da dor que já estava insuportável, eu dei o soco.
O menino reclamou para as inspetoras, e eu fiquei de castigo num banquinho.
Eu sabia que isso ia acontecer, mesmo sendo injusto.
O que eu não sabia que ia acontecer era uma menininha bem pequeninha, junto com outro menino bem pequeninho, se sentarem, um de cada lado, me darem as mãos e não sairem dali enquanto meu castigo não acabasse.
Essa foi a primeira vez que eu me lembro de chorar até desidratar.