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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Admiração que termina onde a fé começa

Ontem foi dia de ver o David Lynch no Fronteiras do Pensamento. Cineasta, artista plástico e dono de um topete branco com mechas lilases, ele realmente é um ícone do nosso tempo.

Minha admiração pelo seu trabalho começou precisamente em 1991, por causa de Twin Peaks. Mas já ouvia falar dele pelo meu irmão, um fã de O homem elefante. Confesso que não conheço seu trabalho nas artes plásticas, mas no cinema esse senhor comanda. Eu amo seus filmes alucinados e também o tranqüilo e belíssimo
História Real.

Eis que Lynch resolve vir ao Brasil para promover seu livro Águas profundas: criatividade e meditação. E assim que ouvi dizer que ele faria uma participação extra no Fronteiras, lá fui eu a procura de ingresso. Esperei por esse dia que nem criança pelo Papai Noel. Daí o dia chegou, o meu amigo Alexandre teve a sorte de almoçar com o nosso guru, tirou fotos e tal e nos mandamos para o evento.


Sabem quando se tem a impressão de que pagamos por um filme que não valia o ingresso? Então. Lá estava eu, encantada com a clareza com que Lynch proferia as palavras e abismada com o que estava ouvindo. Dentre muitas coisas que faziam pontos de interrogação saltar da minha caixa craniana, ouvi algo como "Sem meditação, a felicidade é superficial". Sim, eu já ouvi isso antes! Perguntas sobre cinema, arte, música foram feitas e todas foram respondidas com "transcendental meditation is a bliss".

Ok, mister Lynch, I had enough from you. Tudo bem, ele crê. Tudo bem, pode ser que dê certo. Tudo bem, talvez um dia eu experimente. Mas por ora, deixe-me com minha negatividade, minha agressividade e minhas convicções. Eu não fui lá para ter lavagem cerebral, muito menos para ficar ouvindo alguém que foi amigo dos Beatles tocar um ritmo que eu não aprecio. Tipo: para mim, Beatles já é chatinho. Imagina alguém que é "amigo dos Beatles". Pois o David Lynch trouxe essa pessoa, o cara era bom lá no que ele fazia, mas eu não queria ver ele, queria ver e ouvir o próprio Lynch falando sobre filmes e não sobre como quem não medita é mais burro, mais infeliz, mais baixo-astral.

Até porque ele não explicou muito bem como a meditação pode trazer a paz mundial. Tipo: vai mandar uma criança nigeriana ficar meditando enquanto toma balaço? Vai dizer lá para o somali que ele pode curar a fome só com meditação?
Sei não, viu? A única coisa que realmente me fez vibrar foi quando, ao responder uma pergunta sobre a função do diretor de comerciais, ele falou que misturar cinema com vendas é um crime. Não que eu concorde plenamente, mas foi muito divertido ver a cara de tacho de algumas pessoas na platéia :D

Assim, termino esse post garantindo para vocês que minha admiração pelas pessoas mingua quando elas começam a querer impingir a sua fé. Vou me limitar a continuar amando os filmes de David Lynch.